A cidadania constitui uma dimensão essencial do trabalho social com famílias,  especialmente em contextos de desigualdade social, racial e territorial. Para além do acesso à documentação e às políticas e benefícios sociais, a formação cidadã  amplia conhecimentos sobre direitos, deveres e participação social. 

Durante o mês de julho, foram realizadas 16 rodas de conversa com 146  responsáveis acompanhados no Instituto. A maioria dos participantes é composta por  mulheres negras e pardas, moradoras de comunidades de diferentes territórios do Rio de  Janeiro. 

A atividade teve como eixo a dinâmica “Quem faz o que nas eleições?”, voltada  à compreensão das atribuições dos diferentes cargos políticos. A proposta buscou  estimular o pensamento crítico e contribuir para escolhas eleitorais mais conscientes, sem  vinculação político-partidária. O trabalho também incorporou práticas artísticas, por meio  da criação coletiva bandeiras, relacionando cidadania, direitos, memória e expressão. 

A experiência possibilitou ainda refletir sobre movimentos de mulheres na defesa  de direitos, o enfrentamento aos apagamentos históricos e a relação entre cidadania e bem  viver. 

 

Cidadania como exercício coletivo de direitos

Trabalhar cidadania pressupõe reconhecer os usuários como sujeitos de direitos e  participantes da construção da vida social. Nesse sentido, as rodas de conversa foram  organizadas como espaços de escuta, troca de experiências e construção coletiva de  conhecimentos.

A dinâmica “Quem faz o que nas eleições?” apresentou, de forma acessível, as  responsabilidades de prefeitos, vereadores, deputados, governadores, senadores e  presidente. A metodologia partiu dos conhecimentos prévios dos participantes,  permitindo que dúvidas e percepções fossem compartilhadas sem julgamentos. A  proposta contribuiu para diferenciar as atribuições dos cargos e ampliar a compreensão  sobre os espaços de atuação do poder público. 

Esse conhecimento é fundamental para que os cidadãos possam identificar  responsabilidades, acompanhar ações e buscar os canais adequados para suas demandas. R., 47 anos, expressou essa descoberta ao afirmar: “Eu não sabia nada, aprendi o que é  prefeito, vereadores e as leis que os deputados criam”. A fala evidencia a importância de  democratizar informações que, embora fundamentais ao exercício da cidadania, nem  sempre estão acessíveis às populações socialmente vulnerabilizadas. Assim, a atividade compreendeu a informação como instrumento de autonomia e  fortalecimento da participação social. 

Arte, memória e valorização das mulheres

A dimensão artística da atividade ampliou as possibilidades de expressão e  participação das famílias nas discussões propostas. A criação de bandeiras possibilitou  trabalhar símbolos, cores e ideias relacionados aos direitos, à cidadania e aos desejos  coletivos. O fazer artístico foi compreendido não apenas como produção estética, mas  como linguagem capaz de estimular reflexão, criatividade e pertencimento. 

Nesse percurso, também foram apresentadas referências históricas de mulheres  que participaram de movimentos de luta e defesa de direitos. A Marcha das Mulheres  Negras foi abordada como expressão da organização política e da reivindicação por  direitos, dignidade, justiça e melhores condições de vida. 

Valorizar essas trajetórias contribui para enfrentar apagamentos históricos e ampliar o  reconhecimento das mulheres negras como sujeitos políticos. 

Entre as atividades artísticas propostas, uma delas começou com a provocação “O  que é uma bandeira?” Em seguida, foi proposta a atividade “pintando bandeiras”, em que  a intenção era relacionar a cidadania como exercício coletivo e construção do bem viver. Surgiram frases que tratam sobre o fim do feminicídio, do preconceito, o respeito às crianças e os idosos, o fim da fome, entre outros temas que compõem a plataforma política  das mulheres da turma e suas bandeiras. Em outro momento, a atividade artística proposta  foi o “coletivo de bandeira é bandeira”, onde as participantes, segurando um único pedaço  de tecido, pintaram juntas um desenho com nankim, representando as demandas e anseios  coletivos, além da rede de apoio formada por elas próprias.

A metodologia acolhedora também favoreceu a participação de pessoas que  poderiam se sentir inseguras diante de uma atividade de caráter formativo. D., 27 anos, relatou: “Foi um assunto que necessito explorar mais. Gostei da forma como  foi conduzida a dinâmica, pois não fiquei acanhada em mostrar a minha resposta”. O  depoimento reforça a importância de práticas inclusivas e lúdicas para construir espaços  de aprendizagem, expressão e reconhecimento.

Conhecimento, participação e voto consciente

A discussão sobre o sistema eleitoral possibilitou relacionar conhecimento,  participação política e cotidiano das famílias. Compreender as responsabilidades de cada  cargo contribui para que o eleitor possa observar com maior criticidade propostas,  compromissos e ações dos representantes. 

A atividade também favoreceu a reflexão sobre os caminhos institucionais para  encaminhamento de demandas e reivindicação de direitos. A., 55 anos, destacou esse  aspecto ao afirmar: “Aprendi muitas coisas, não sabia a quem recorrer, agora sei qual a  responsabilidade de cada um”. Sua fala demonstra que a informação sobre o  funcionamento das instituições pode ampliar a autonomia dos sujeitos diante das  situações vivenciadas em seus territórios.  

O conhecimento produzido nas rodas também ultrapassa o espaço da atividade,  podendo ser compartilhado com outros integrantes das famílias. Nesse sentido, a  formação cidadã constitui um processo coletivo, capaz de estimular novas conversas e  ampliar a circulação de informações.  

A reflexão sobre o voto foi trabalhada, portanto, como parte de um exercício mais  amplo de participação democrática e análise crítica da realidade. Ao relacionar as funções  políticas às demandas concretas dos usuários, a atividade possibilitou pensar escolhas  eleitorais vinculadas à defesa de direitos e à transformação social.

Cidadania e bem viver

A experiência realizada durante o mês de julho reafirmou a importância de  integrar formação cidadã, cultura e participação ao trabalho social com famílias. As rodas  de conversa constituíram espaços de informação, diálogo, expressão e construção  coletiva. A abordagem do sistema eleitoral permitiu ampliar conhecimentos sobre as  instituições e estimular uma postura mais crítica diante das escolhas políticas. 

A dimensão artística, por sua vez, possibilitou expressar ideias e sentimentos  relacionados aos direitos, à identidade e à vida em comunidade. A valorização das  trajetórias de mulheres negras contribuiu para reconhecer memórias de resistência e  fortalecer referências historicamente invisibilizadas.  

Nesse processo, a cidadania foi compreendida como prática cotidiana, relacionada  ao acesso a direitos, à participação e à capacidade de incidir sobre a realidade. O conceito de bem viver amplia essa perspectiva ao valorizar dignidade, coletividade,  cuidado, justiça social e melhores condições de existência. Para o trabalho social com  famílias, investir nesses processos significa reconhecer os usuários como sujeitos capazes  de produzir conhecimento e transformar suas realidades. 

A experiência demonstrou que estratégias participativas, acolhedoras e lúdicas  podem fortalecer o senso crítico e a autonomia. Formar para a cidadania é, portanto, criar  espaços para que diferentes sujeitos conheçam seus direitos, reconheçam sua potência  coletiva e participem da construção de uma sociedade mais democrática.

Este artigo faz parte do conjunto de atividades promovidas pelo projeto Programação Artístico Familiar – PAF – 2ª edição, PRONAC 2510672 desenvolvido pelo Instituto Dara, apresentado pelo Ministério da Cultura através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.