As rodas de conversa realizadas ao longo do mês de agosto reuniram famílias atendidas no Instituto Dara para refletir sobre violência de gênero, prevenção e formação cidadã. A iniciativa integrou as ações do Agosto Lilás e buscou aproximar o tema da realidade cotidiana das famílias, em sua maioria chefiadas por mulheres negras e pardas, moradoras de diferentes territórios e comunidades do Rio de Janeiro.
Foram realizadas 16 rodas de conversa, com a participação de 152 responsáveis. Mais do que transmitir informações, os encontros foram pensados como espaços de escuta, troca e construção coletiva, fortalecendo a capacidade das famílias de reconhecer situações de violência e refletir sobre estratégias de prevenção.
Formação cidadã: informação para reconhecer e enfrentar a violência
A formação cidadã ultrapassa o acesso a documentos, benefícios e serviços. Envolve também ampliar o conhecimento sobre direitos, desenvolver o senso crítico e criar condições para que os sujeitos compreendam e transformem aspectos da realidade que atravessam suas vidas.
Nesse sentido, as rodas abordaram os diferentes tipos de violência de gênero e o conceito de misoginia, utilizando linguagem simples e acessível. A discussão possibilitou refletir sobre comportamentos que muitas vezes são naturalizados e sobre a importância de construir, desde a infância, relações baseadas no respeito e na igualdade. Um dos focos foi a violência sofrida por meninas no ambiente escolar e a necessidade de fortalecer o diálogo entre responsáveis, crianças e adolescentes. A prevenção foi discutida como uma
responsabilidade coletiva, que envolve tanto a proteção das meninas quanto a educação dos meninos para relações não violentas.
Juventudes, internet e novos desafios
A discussão também considerou os espaços digitais como parte dos processos atuais de socialização. Para iniciar a reflexão, foi apresentado um vídeo de uma matéria jornalística com a fala de uma juíza da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, chamando atenção para a presença de discursos misóginos entre jovens e para a circulação desses conteúdos na internet. Redes sociais, jogos on-line e plataformas digitais podem reproduzir e ampliar discursos de ódio e violência. Por isso, orientar crianças e adolescentes não significa apenas controlar o tempo de uso, mas desenvolver a capacidade de identificar conteúdos violentos, questionar discursos discriminatórios e utilizar esses espaços de maneira crítica e responsável.
As rodas reforçaram, assim, a importância do diálogo dentro de casa, criando espaços de confiança para que meninas e meninos possam falar sobre situações vivenciadas no ambiente escolar e digital.

Arte e cultura como caminhos para o diálogo
A dimensão artística e cultural esteve presente como estratégia para abordar um tema sensível de forma participativa. As atividades buscaram promover a construção de um repertório de si, ampliar conhecimentos sobre violência de gênero e utilizar jogos e outras linguagens como recursos para a fixação das informações. A arte também possibilitou criar outras formas de expressão e conversa. Ao transformar experiências individuais em reflexão coletiva, os recursos artísticos contribuíram para tornar o debate mais próximo, sensível e acessível às participantes.
Educação e novas referências dentro das famílias
Os depoimentos compartilhados durante os encontros mostraram que muitas participantes já desenvolvem estratégias próprias para educar seus filhos a partir de valores de respeito e não violência. J. Y., mãe de cinco filhos, relatou que busca construir
uma relação diferente daquela que vivenciou na infância: “Sou de uma família em que minha mãe não era presente, o que ela exigia eram boas notas. Hoje procuro atuar com um modelo diferente do que recebi.” Ao contar que seu filho mais velho a defendeu durante uma situação de violência praticada pelo ex-marido, afirmou: “Fiquei feliz, pois vi que os meus ensinamentos estavam surtindo efeito.” M. V., que criou três meninos e uma menina sozinha, também compartilhou a orientação que procura transmitir aos filhos: “Não faça com uma mulher o que não gostaria que alguém fizesse com sua irmã.”

As falas revelam que as famílias também produzem saberes e estratégias de enfrentamento. Reconhecer essas experiências é parte importante do trabalho social, que não deve olhar para os sujeitos apenas a partir de suas vulnerabilidades, mas também de suas potências e possibilidades de transformação.
As rodas de conversa possibilitaram ampliar o acesso à informação sobre violência de gênero e fortalecer a reflexão sobre prevenção, relações familiares e formação cidadã. A participação das famílias evidenciou a importância de espaços coletivos nos quais experiências possam ser compartilhadas e transformadas em conhecimento.
A experiência também reforçou a potência da articulação entre cidadania, cultura e arte. Ao utilizar diferentes linguagens para tratar de um tema sensível, foi possível favorecer a participação, ampliar repertórios e estimular o senso crítico das famílias.
O Agosto Lilás, portanto, foi tomado como ponto de partida para uma reflexão que precisa ultrapassar o mês de agosto. O enfrentamento da violência contra meninas e mulheres passa pela informação, mas também pela transformação das relações cotidianas, pelo diálogo entre gerações e pela construção permanente de uma cultura de respeito, igualdade e garantia de direitos.
Este artigo faz parte do conjunto de atividades promovidas pelo projeto Programação Artístico Familiar – PAF – 2ª edição, PRONAC 2510672 desenvolvido pelo Instituto Dara, apresentado pelo Ministério da Cultura através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.


