Quando as amigas Alice Freitas e Rachel Schettino idealizaram a Rede Asta, em 2005, elas não sabiam muito bem o escopo do projeto que tinham em mente, mas tinham uma certeza: seriam aliadas de mulheres empreendedoras das classes C, D e E. Quase duas décadas depois, a Rede impactou 8.500 mulheres de 234 cidades brasileiras e gerou R$ 20 milhões de renda.

“Nossa experiência mostra que a maioria das mulheres empreende por necessidade, mas não se reconhecem como empreendedoras. A gente trabalha para fortalecer essas redes e, sobretudo, para que ela se enxergue nesse novo papel e acredite em si mesma”, diz Alice.

O primeiro projeto da dupla foi com um grupo de coletoras de reciclagem de Campo Grande (RJ) que fazia artesanato com jornal. Com o primeiro aporte que receberam da Fundação Avina, desenvolveram uma rede de revendedoras de artesanato com produtos de todo o país. Depois, vieram novos desafios, erros e acertos.  

A  Rede Asta é, hoje, uma organização social que apoia mulheres artesãs em três frentes: com uma escola de negócios, que capacita empreendedoras; na produção, com a confecção de produtos em larga escala (máscaras durante a pandemia e, hoje, absorventes); e na venda, aproximando vendedores e compradores que vivem próximos.

São mulheres das classes C, D e E que, na maior parte das vezes, começam a empreender por necessidade. A Rede identifica essas empreendedoras e as insere em redes de oportunidades para gerar impacto real e sistêmico. Segundo um estudo realizado pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME) em 2022, 46% das mulheres ouvidas começaram um negócio por necessidade. Dessas, 52% das empreendedoras são negras, 71% estão nas classes D e E e 56% possuem até o ensino fundamental.

Alice compartilha os principais pontos que devem ser levados em consideração por quem trabalha ou deseja trabalhar com nanoempreendedoras:

1) Autoestima

 “Comece pelo elogio”, ensina Alice. Quando uma mulher for mostrar o produto que ela faz, primeiro destaque as qualidades para, só então, apontar o que pode ser melhorado. “Muitas mulheres nem olham nos nossos olhos quando vêm mostrar o que fazem. Por timidez, por autoestima abalada, por falta de confiança”, diz.

 A mulher em situação de vulnerabilidade sofre muito boicote da realidade em que vive, seja do marido, dos filhos que demandam, e não costuma ter apoio quando começa a gerar renda própria. “O artesanato que ela faz, seja um bolo ou uma roupa, é quase uma extensão dela porque é feito com suas mãos. Criticar o produto é criticá-la como pessoa”.

 2) Conhecimento

 Um dos grandes aprendizados das criadoras da Rede Asta é que criar dependência é ruim para as empreendedoras. Enquanto a Asta era um hub de comércio – com vendas em lojas físicas, online, via revendedoras e encomendas para grandes empresas – as artesãs não se aproximavam tanto de outras frentes importantes para o negócio deslanchar, como vendas, marketing e tecnologia.

 Com a criação da Escola Asta de Negócios, Alice e Raquel sentiram que as aprendizes se apropriam do conhecimento e ficam mais independentes na hora de vender. “Se a Asta deixar de existir um dia, elas seguem em frente”.

 Outro ponto importante é sobre os conteúdos ensinados. “Eles precisam ser didáticos, acessíveis e lúdicos”, destaca Alice. No modelo criado por elas, uma monitora se responsabiliza por um grupo de alunas para apoiar a continuidade nos estudos e não deixar ninguém para trás. Para as alunas da classe E, há uma ajuda de custo de R$ 100 mensais.

3) Parcerias

 Avança quem delega! E como os negócios tendem a crescer – ao menos é o que se espera quando se empreende – fica difícil sobreviver fazendo tudo sozinha. Mas, numa realidade em que não cabe contratação de funcionários, é preciso aprender a fazer parcerias. 

“Sabe o tio contador ou o sobrinho que sabe editar vídeo para rede social? Então, a gente sugere chamar ele para uma conversa, pensando em uma parceria: ele pode  ter uma porcentagem em cada produto vendido, algo nessa linha, que seja interessante para as duas partes”, exemplifica Alice. “É, ainda, uma ótima maneira de treinar a habilidade de convencimento”.

  4) Comunicação

 É importante comunicar sempre o “copo cheio”. Fazer o marketing a partir da história de cada uma, o seu caminho até aquele produto que vende. Como a Ana Lúcia, dona Fuxicarte. Ela, que integrou a Rede Asata em 2000, já palestrou no TEDx Jardim Botânico, ganhou um prêmio na França e participou do Festival de Cannes.

 5) Clientes

 Ajude a nanoempreendedora a achar seus clientes. Existem mais de 14 canais de vendas, dos mais convencionais como via WhatsApp e Instagram, até os menos óbvios, como expor produtos em hotéis e transatlânticos ou produzir brindes para empresas – e todos podem ser explorados. Na Rede Asta, existe ainda a preocupação de explorar a localidade – ou seja, vender para quem está próximo. Nesse sentido, vale tudo, como aplicativo com geolocalização, parceria com lojistas do bairro e, principalmente, venda em feiras de artesãos.

 “Muitas das nossas empreendedoras ficam tristes por não venderem muito em feiras. Mas feira é contato, captação de clientes. É ali que você mostra seu produto e cadastra os contatos no WhatsApp para vendas futuras.”

 Um braço da Rede Asta que tem crescido nos últimos tempos são as ações territoriais: parceria com municípios para ajudar a desenvolver redes de artesãs locais. Hoje, a ONG cuida da profissionalização das artesãs da cidade de São Paulo, em parceria com a prefeitura, capacitando mais de 6 mil artesãs. A ideia é ajudar a fomentar políticas públicas que incentivem as produções artesanais regionais.

 Máscaras e absorventes

Durante a pandemia, quando a Rede Asta quase fechou as portas por falta de verba, uma iniciativa fez tudo mudar. Como já tinham uma grande estrutura montada de artesãs por todo o país, criaram um aplicativo e anunciaram que precisavam de costureiras. O Jornal Hoje, da TV Globo, fez uma reportagem e, depois disso, onze mil mulheres se cadastraram. A primeira grande encomenda veio do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo. Ao final, 4.300 costureiras fizeram sete milhões de máscaras que geraram uma renda de R$ 12 milhões.

“Foi a primeira vez que entrou dinheiro nessa escala”, recorda Alice. “A gente tinha método, cultura, gestão, todo um terreno preparado. E a pandemia nos deu a oportunidade para a qual estávamos prontas”. A história foi contada no documentário “Fio do afeto”, exibido pela Globoplay. 

A produção de máscaras foi encerrada em 2022 e, desde então, a Rede Asta passou a gerir uma grande produção de absorventes de tecido reutilizáveis para mulheres de baixa renda que não têm recursos para comprar o vendido nas farmácias. Mais de 320 mil absorventes já foram produzidos.